Vida oculta em Deus


O famoso tratado de Martinho Lutero The Freedom of the Christian [A liberdade do cristão] atinge seu ápice quando ele conclui:

“Um cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e no próximo. Caso contrário, ele não é cristão. Ele vive em Cristo pela fé, no próximo pelo amor. Pela fé ele é arrebatado para além de si mesmo em Deus. Pelo amor ele desce ao nível do próximo. No entanto, ele sempre permanece em Deus e seu amor.”

Ser cristão é, num certo sentido, ser deslocado. Um cristão não vive em si mesmo; vive fora de si – em Deus e no próximo. Reflitamos um momento sobre o primeiro e mais importante deslocamento, sobre viver pela fé “em Deus” ou ser “arrebatado” e colocado “em Deus”. Isso para Lutero é duplamente significativo. Primeiro liberta as pessoas da pressão de ter de conseguir as boas graças de Deus por meio do que elas fazem. Essa ideia está no cerne da explicação de Lutero sobre a salvação. Segundo sua tese não é que aquilo que as pessoas fazem não tem importância: tem profunda importância – para Deus, para o próximo e para elas mesmas. Todavia, nada do que elas fazem muda o fato de que Deus as ama e, se elas confiam em Deus, ele as recriará como novas criaturas, libertas de culpa e capazes de amar aos outros.

Sermos “arrebatados para além” de nós mesmos e colocados “em Deus” é significativo para Lutero também por outro motivo. Por trás de sua explicação de como Deus salva os seres humanos está a explicação de quem os seres humanos são. Não somos feitos, nem desfeitos, por aquilo que fazemos ou que os outros nos fazem. O essencial de nossa identidade não está em nossas mãos, mas nas mãos de Deus. Somos nós mesmos, no sentido mais próprio das palavras, porque Deus está em nós e nós em Deus. Sem dúvida, o que nós ou outros inscrevemos em nossas almas e no corpo nos marca e ajuda a moldar quem somos. Todavia, isso não tem poder para nos definir. O amor de Deus por nós, na verdade, a presença de Deus em nós e o fato de sermos “arrebatados para além” de nós mesmos e colocados “em Deus” nos define do modo mais fundamental como seres humanos e como indivíduos.

Miroslav Volf

Em seu livro O Fim da Memória



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.