Teologia e apologética


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Uma compreensão adequada da teologia cristã nos fornece um mapa mental que nos permite localizar os recursos da apologética. Muitas vezes, esta é apresentada simplesmente como uma técnica para vencer discussões. Avery Dulles é um dos muitos escritores influentes que expressam sua preocupação com tais abordagens teologicamente deficientes, ao observar sua “negligência quando à graça, à oração e ao poder da Palavra de Deus, que é vivificador”. Um entendimento correto, apoiado numa base teológica firme, insiste em que Deus está envolvido na iniciativa apologética. É inconcebível dissociar a graça de Deus do empreendimento de recomendar Deus. Pensar na apologética apenas relacionada com técnicas e argumentações humanas é correr o risco de cair em alguma forma de pelagianismo, o qual neglicencia – talvez até negue- a presença, o poder e a persuassão de Deus na tarefa da apologética.

Além do mais, a tarefa da apologética não pode se limitar ao desenvolvimento de argumentações. De certa forma, devemos entender que a apologética envolve a capacitação de pessoas perceberem algo da glória e da beleza de Deus. É isso que converterá e segurará pessoas, e não argumentos engenhosos. A verdadeira apologética envolve não apenas a mente, mas também coração e imaginação. Nós empobrecemos o evangelho ao neglicenciarmos o seu impacto em todos os nossos sentidos dados por Deus. O grande teólogo puritano do século 18, Jonathan Edwards (1703-1758), continua sendo um dos mais notáveis críticos de uma abordagem puramente racionalista. Para ele, o argumento racional tem valor e lugar importantes na apologética cristã, mas não é o único e talvez nem o principal recurso do apologeta:

Pode-se fazer ótimo uso de argumentos externos, eles não podem ser neglicenciados, mas altamente estimados e valorizados; pois podem ser proveitosos para despertar os descrentes e trazê-los a uma consideração séria, e para confirmar a fé dos verdadeiros santos […]. [Ainda assim], não existe convicção espiritual do julgamento, mas o que surge da apreensão da beleza e glória espirituais das coisas divinas.

Argumentos não convertem. Eles podem remover obstáculos à conversão e sustentar a fé dos cristãos, mas em si mesmos não são capazes de transformar a humanidade. Para Edwards, a verdadeira conversão se baseia num encontro com o gracioso e glorioso Deus. A compreensão disso é libertadora no que diz respeito a reafirmar que a apologética não trata do desenvolvimento de técnicas humanas de manipulação, mas do reconhecer e vir a confiar na graça e glória de Deus.

Alister McGrath

em seu livro Teologia Pura e Simples



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.