O que o sofrimento de Jesus nos revela?


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O sofrimento é um mistério que causa angústia a muitos cristãos. Parece que ele põe em dúvida o amor de Deus. O sofrimento de Jesus Cristo na cruz do Calvário não explica por que sofremos. Esse sofrimento revela, porém, que o próprio Deus é capaz, e se dispõe a isso, de se sujeitar a toda dor e todo sofrimento que sua criação enfrenta. Não estamos falando de um Deus afastado de seu mundo, alheio aos problemas e distante deles. Estamos lidando com um Deus amoroso que participou de nossa condição humana, fez-se homem e viveu entre nós como um de nós. Conhecemos um Deus que, por nos amar, decidiu experimentar pessoalmente o que é ser frágil, mortal e humano, sofrer e morrer. Não podemos explicar o sofrimento, mas podemos afirmar que, na pessoa de seu Filho Jesus Cristo, Deus decidiu seguir esse caminho. Ele se fez um “homem de dores” para que pudéssemos participar do mistério da morte e da ressurreição.

Deus sabe o que é ser humano – uma ideia que nos deixa perplexos e nos consola. Ele não é feito um general que dá ordens aos soldados da segurança de um abrigo a prova de bombas, a quilômetros da linha de frente, mas é semelhante a um líder que conduz pessoalmente os soldados na frente de combate e já fez antes tudo o que lhes ordena. Se Deus nos pede que soframos em seu nome, é porque já sofreu em nosso lugar.

O sofrimento e a dor do mundo não vão deixar de existir, e temos todo o direito de contestar aqueles que nos dizem que um dia tudo ficará bem se seguirmos sua solução especial para os males do mundo. O realismo exige que trabalhemos para mitigar a infelicidade e o sofrimento, reconhecendo que acreditar na eliminação total desses males é uma visão utópica. A ideia de uma revolução política que elimine  o sofrimento e a miséria humana perdeu a pouca credibilidade  que um dia teve e, provavelmente causou essa mesma miséria, quando essa hipótese se transformou em dogma. Agora que o marxismo  perdeu força nos países do leste europeu, por exemplo, sua incapacidade de solucionar a angústia humana, apesar de todas as suas promessas, tem se tornado cada vez mais evidente.

O que, então, pode-se dizer de Deus e do sofrimento? Pode-se dizer algo que traga consolo? Na história do mundo, quatro respostas têm sido dadas:

  1. O sofrimento é real e não vai deixar de existir. A morte, porém, é o fim, ela põe termo ao sofrimento e traz enfim a paz.
  2. O sofrimento é uma ilusão. Não existe, é algo que imaginamos.
  3. O sofrimento é real, mas temos de ser capazes de superá-lo e reconhecer que ele tem pouca importância.
  4. O cristão tem a quarta resposta: Deus sofreu em Cristo. Ele sabe o que é sofrer. A Epístola aos Hebreus fala de Jesus como nosso “sumo sacerdote”  compassivo (Hb 4.15), alguém que sofre conosco. Esse conceito não explica o sofrimento, mas pode torná-lo mais tolerável, pois expressa a ideia de que o próprio Deus sofreu ele mesmo o que sofremos. Isso nos dá uma nova perspectiva da vida. O cristianismo sempre defendeu que o sofrimento de Cristo na cruz foi o auge do cumprimento de seu ministério. Deus compartilha dos piores momentos do seu povo. Ele pode ser encontrado no sofrimento.

Um famoso adágio sobre a profissão de médico vale a pena ser lembrando aqui: “Só o médico ferido é capaz de curar”. O Deus que se oferece para curar as feridas de nosso pecado já foi ferido por pecadores.

Alister McGrath

em seu livro Creio



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.