O evangelho e nosso trabalho


As igrejas devem ajudar os cristãos a verem como o evangelho molda e informa nosso trabalho de, pelo menos, quatro maneiras:

1. A fé transforma nossa motivação pelo trabalho. Para profissionais e outros com tendência ao excesso de trabalho e à ansiedade, o evangelho nos defende de encontrar significado e identidade no dinheiro e no sucesso. Para os trabalhadores braçais propensos ao que Paulo chama de serviço de aparência (Cl 3.22, ARC; “eles estão observando”, NVI) e enfadonho, nossa fé nos leva a trabalhar “de coração, como […] ao Senhor” (3.23).

2. A fé transforma nosso conceito de trabalho. Uma teologia sólida da criação — e do amor e cuidado de Deus por ela — nos ajuda a entender que mesmo as tarefas simples como consertar um sapato, tratar de uma cárie e abrir uma valeta são maneiras de servir a Deus e desenvolver uma comunidade. Nossa produção cultural reorganiza o mundo físico de tal maneira que honra a Deus e desenvolve a prosperidade humana. Uma boa teologia de trabalho resiste à tendência da sociedade moderna de valorizar apenas competência nos empreendimentos que envolvam mais dinheiro e poder.

3. A fé provê éticas elevadas para o cristão no local de trabalho. Muitas coisas são tecnicamente legais, mas biblicamente imorais e insensatas e, portanto, fora dos limites do cristão. As normas éticas da vida cristã, fundamentadas no evangelho da graça, devem sempre levar o cristão a ter um nível extremamente elevado de integridade no trabalho.

4. A fé nos dá base para reconsiderar até a própria maneira em que nosso trabalho é realizado. Toda comunidade opera de acordo com uma matriz compartilhada do que é considerado mais importante. Se Deus e sua graça não estão no centro de certa cultura, então outras coisas serão consideradas como valor absoluto. Portanto, todos os campos vocacionais estão distorcidos pela idolatria. Os médicos cristãos logo vão notar que algumas práticas lhes rendem mais dinheiro, porém não acrescentam valor à vida dos pacientes. Os cristãos da área de marketing perceberão que alguns padrões aceitáveis de comunicação distorcem a realidade, manipulam as emoções ou tocam nos piores aspectos do coração humano. Os cristãos do mundo empresarial notarão a tendência de buscar lucro financeiro de curto prazo à custa da saúde da companhia a longo prazo ou a adoção de práticas que colocam o lucro financeiro acima do benefício dos funcionários, dos clientes ou de outras na comunidade. Os cristãos que transitam no mundo artístico vivem e trabalham em uma cultura onde a autoexpressão narcisista pode ser o objetivo maior. Na maioria das profissões, os cristãos se deparam com ambientes de trabalho em que o comportamento competitivo e cruel é a norma. Uma cosmovisão bíblica capacita os cristãos a interpretarem as filosofias e as práticas que dominam suas áreas de trabalho, e oferece-lhes maneiras de renová-las e transformá-las.

Tim Keller

no seu livro Igreja Centrada



Compartilhe
Tags
Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.