Nárnia como uma janela para a realidade


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Para Lewis, a narrativa de Nárnia tem a capacidade de novamente encantar um mundo desencantado. Ela nos ajuda a imaginar nosso mundo de maneira diferente. Não se trata de escapismo, mas sim de discernir níveis mais profundos de significado e valor naquilo que já conhecemos. Como Lewis ressaltou, os leitores desses seus livros infantis não desprezam “os bosques verdadeiros” porque “leram sobre bosques encantados”; pelo contrário, sua nova maneira de ver as coisas “torna todos os bosques verdadeiros um pouco encantados”.

O próprio Lewis falou acerca de um processo de “visão dupla” em vários pontos de suas obras, mais marcadamente, na conclusão de uma palestra proferida no Clube Socrático de Oxford em 1945: “Eu acredito que o sol surgiu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todas as outras coisas”. Podemos olhar para o sol em si; ou podemos, em vez disso, olhar para as coisas iluminadas por ele, ampliando assim nossa visão intelectual, moral e estética. Podemos ver o verdadeiro, o bom e o belo mais nitidamente se nos for dada uma lente que focaliza esses aspectos. Eles não são inventados pela nossa leitura de Nárnia, mas são discernidos, iluminados e mais nitidamente enfocados. E mais do que isso, nós enxergamos mais, enxergamos mais longe, olhando através de lente certa.

Devemos ler Nárnia como Lewis nos pede que leiamos outras obras literárias — por um lado, como algo a ser saboreado; por outro, como algo capaz de ampliar nossa visão da realidade. O que Lewis escreveu sobre O Hobbit em 1939 se aplica com o mesmo vigor a seus próprios livros de Nárnia: eles nos permitem entrar em “um mundo independente” que, depois de descoberto, “se torna indispensável”. “Antes de ir lá não podemos nem imaginá-lo; depois de termos ido, ele se torna inesquecível”.

As sete crônicas de Nárnia são muitas vezes mencionadas (mas, é preciso dizer, não pelo próprio Lewis) como uma alegoria religiosa. A obra da fase inicial de Lewis, O regresso do peregrino, é corretamente descrita como uma alegoria religiosa. Cada um de seus elementos tem uma qualidade representativa — em outras palavras, todos são modos disfarçados, porém específicos, de se referir a outra coisa. Todavia, uma década mais tarde, Lewis já havia abandonado essa forma de escrita. É possível ler Nárnia como uma alegoria; contudo, como Lewis observou certa vez: “o mero fato de se poder alegorizar a obra que se tem diante dos olhos não é por si só uma prova de que se trata de uma alegoria”.

Em 1958, Lewis fez uma importante distinção entre uma “suposição” e uma alegoria. Uma suposição é um convite a tentar ver as coisas de outra maneira, e imaginar como elas funcionariam se fossem verdadeiras. Para entender Lewis nesse ponto, precisamos considerar como ele expressou essa ideia:

“Se Aslam representasse a deidade imaterial da mesma forma que o gigante Desespero [de O peregrino] representa o desespero, ele seria uma figura alegórica. Na realidade, porém, ele é uma invenção que dá uma resposta imaginária à pergunta: “Como seria o Cristo se de fato houvesse um mundo como Nárnia e ele escolhesse encarnar-se e morrer e ressuscitar nesse mundo como ele de fato fez no nosso?” Isso não é absolutamente uma alegoria.”

Assim, Lewis convida seus leitores a entrar num mundo de suposições. Suponhamos que Deus decidisse encarnar-se num mundo como Nárnia. Como teria sido? Como seria esse mundo? Nárnia é uma narrativa que explora essa suposição teológica. A própria explicação de Lewis de como a figura de Aslam deve ser interpretada deixa claro que O leão, a feiticeira e o guarda-roupa é uma suposição — a exploração narrativa de uma possibilidade interessante. “Vamos supor que exista uma terra como Nárnia e que o Filho de Deus, que se tornou homem em nosso mundo, lá se tornasse um leão. Vamos imaginar o que aconteceria depois”.

Em O sobrinho do mago, Lewis descreve uma floresta cheia de acessos para outros mundos. Um desses acessos conduz a Nárnia, um novo mundo que logo será habitado por criaturas conscientes, tanto animais como humanas. Lewis, no entanto, é bastante explícito a respeito da existência de outros mundos além de Nárnia. Por assim dizer, Nárnia é um estudo de caso teológico, capaz de esclarecer nossa própria condição. Em vez de responder a perguntas, Nárnia leva à reflexão. Exige que elaboremos nossas próprias respostas, em vez de aceitá-las pré-digeridas. Lewis usa Nárnia para nos mostrar algo sem realmente ter de usar nenhuma argumentação, confiando no poder de suas imagens e estilo narrativo para permitir que nossa imaginação complemente o que a razão apenas sugere.

Alister McGrath

no excelente livro A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia.



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.


Commentários (Um comentário)

  • 19 de fevereiro de 2015 at 11:28

    Bravo!