Fim do frevo?


Eu teria muita, mas muita coisa negativa pra dizer sobre o carnaval, seus abusos, sua “espiritualidade” em alguns aspectos quase de “culto” do hedonismo, o escanda-lo do evento em si numa sociedade tão desigual para além da questão religiosa. Mas não digo só pra não reforçar essa religiosidade “gnóstica” evangélica que tem pavor as artes, cultura, musica, cores e celebração e toda expressão de espiritualidade sacramental da vida ( não de sacramentos, mas de sacramentalidade da vida).

Só pra não reforçar esse espírito religioso de superioridade e justiça própria que acusa e condena irmãos que são livres em suas consciências para fazerem as coisas que querem, como querem dentro da lei e limites do amor, sim, pois o amor cumpre toda lei. Então é só por isso.

Quem me vê defendendo por aqui pode até me imaginar virado na buraqueira por ai, mas não, pra não mentir fui pra Olinda sábado a tarde, fui na Igreja domingo e ontem na praia, pra que ninguém ache que to defendendo causa própria ou minha vontade de “cair na bagaceira”.

Sempre fui pra retiro, desde o meu encontro pessoal com Jesus e abri mão de tudo por ele, das coisas legítimas e ilegítimas, tudo o que a igreja dizia que eu deveria deixar, eu deixava por amor a Jesus, vendi até minha coleção de X-Men, desde as “Super aventuras Marvel”, toda saga, porque os irmãos disseram que era do Diabo, então era e eu queria era Jesus acima de tudo.

De 2006 até 2012 estive envolvido em evangelismo de carnaval e oração nas vigílias internas e externas, do último “Praça da Paz” e todos os VIVAS dai pra frente. Contudo tenho as melhores lembranças da minha infância no carnaval, com os meus pais que não eram evangélicos, nas matinês, lembro da chuva, do frevo, das freviocas, do maracatu, batendo tambor o som no peito contagiando todo mundo, lembro do caboclinho, do medo da La ursa e do boi correndo atrás e eu e meus irmãos gargalhando sorrindo, lembro dos banhos, das brincadeiras com bomba dágua, dos confetes e penas, que até o toque e visão me trazem lembranças felizes da infância. Carnaval e São João eram as épocas do ano que eu sempre “me desviava” para tristeza da tia do cultinho.

Depois penso nos meus amigos artistas plástico, dançarinos, músicos e cantores, jornalistas que são cristãos regenerados, nascidos de novo ( não to falando de gente que ta envolvida na podridão do carnaval comercial não, to falando de gente envolvida na produção cultural) tendo que ouvir piadinhas e indiretas o tempo todo como se eles fossem prostitutas e traficantes ganhando o seu dinheiro de forma ilegal. Sim, porque se eu acredito que uma coisa é ESSENCIALMENTE MALIGNA, eu não devo me envolver UMA UNHA com isso. Penso nos pais cristãos , que tem que ouvir indiretas o tempo inteiro e ameças ao fogo do inferno, por fantasiarem seus filhos e os levarem pra curtir as festinhas da escola, tudo isso porque não querem que suas crianças sejam alienígenas sociais.

Se você é do Rio e Salvador, talvez você tem razão em querer que o carnaval venha a fim hehehehehe, eu não vejo graça nenhuma em escola de samba (a apelação e exposição da nudez feminina e masculina nas escolas do Rio) e trio elétrico e bloco que você paga uma fortuna pra correr atrás. Mas se você é cristão sensível as artes, cores, músicas e danças e vier a Recife, acho que você pensaria como eu, em termos de resgate e redenção da cultura e não de aniquilação. Eu acho que a coisa tem que ser salgada e não jogada fora, eu acho que a luz tem que ser posta no velador e não sair da cidade.

Ver um pastor carioca berrando aqui em Rio Doce ano passado: “EU PROFETIZO O FIM DO FREVO”, chega me doeu o coração, não vou mentir, na hora eu desejei foi o fim do ministério de louvor repetitivo e musicalmente pobre dele.

Marcondes Soares



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.