Cultivando a Cidade


recife

Começando com os profetas do Antigo Testamento, o mundo redimido de Deus no futuro é retratado como uma cidade. Em Apocalipse 21 e 22, quando os planos criadores e redentores de Deus são totalmente conquistados, vemos que o resultado é mesmo uma cidade, com muros, portões e ruas. De algumas formas, essa cidade não é parecida com as cidades de hoje; é mais uma “cidade-jardim” que equilibra perfeitamente os benefícios gloriosos da densidade e da diversidade humanas com a beleza e a calma da natureza. O antigo inimigo da cidade de Deus, a Babilônia, é finalmente derrotado, e o povo de Deus floresce em paz e produtividade (Ap 18).

O mais impressionante nessa cidade santa é que ela não foi construída partindo-se do zero. No meio dessa cidade, corre um rio de cristal, e em cada margem do rio está a “árvore da vida” que produz frutos e folhas que curam as nações de todos os efeitos da maldição da aliança divina (Ap 22.1-3). Na verdade, essa cidade é o mesmo jardim que aparece no relato de Gênesis, que também era marcada por um rio central e pela presença da árvore da vida (Gn 2.8-10), mas que foi expandida e refeita na cidade-jardim de Deus. É o jardim do Éden, mas fielmente cultivado — o cumprimento dos propósitos do Éden de Deus.  Aliás, a própria palavra usada para “jardim” em Gênesis 2 significa não um lugar ermo, mas um “parque”, um pedaço de terra bem cuidado como os que encontramos nas cidades ou junto a um palácio real.

Por que isso é importante? A ordem de Deus para que Adão e Eva dominassem a terra (Gn 1.28) é geralmente denominada de “mandato cultural”. É um chamado para “refletirmos a obra de Deus ao mundo, realizando nossa tarefa no mundo”. É um chamado para desenvolvermos uma cultura e construirmos uma civilização que honre a Deus. A jardinagem (primeira profissão do ser humano) é um paradigma do desenvolvimento cultural. O jardineiro não deixa a terra exatamente como é e nem a destrói. Ele a reorganiza para que produza alimento e plantas para a vida humana. Ele cultiva a terra. (Os termos cultura e cultivar têm a mesma raiz.) Cada profissão é de certa maneira uma resposta ao ato original de cultivo edênico e uma extensão dele. Os artistas, por exemplo, usam a matéria-prima dos cinco sentidos e a experiência humana para produzir música e comunicação visual, literatura e pintura, dança, arquitetura e teatro. Da mesma forma, os técnicos e os construtores pegam o material in natura do mundo físico e reordenam tudo de modo criativo para melhorar a produtividade e a prosperidade humana. Pelo fato de sermos chamados a desenvolver a cultura desse modo e pelo fato de as cidades serem os lugares de maior produção cultural, creio que a construção da cidade seja parte vital da realização dessa incumbência.

Como já observamos, a primeira evidência dessa relação entre cidade, cultura e prosperidade dos seres humanos é encontrada em Gênesis 4, em que Caim “edificou uma cidade” (v. 17). Assim que a cidade é construída, acontece o primeiro desenvolvimento das artes, da agricultura e da tecnologia — os primórdios da criatividade cultural humana que Deus havia ordenado. Mesmo que o propósito de Caim para construir a cidade tenha sido a rebeldia, a força desse propósito foi boa. A tensão da cidade esteve presente desde o começo.

O mandato cultural, nosso incapacidade de cumpri-lo de acordo com o projeto de Deus, sua relação com a construção da cidade e a importância gradual da cidade do homem para a cidade de Deus — todos esses enredos são resolvidos no final do livro de Apocalipse. Embora o primeiro Adão tenha deixado de ouvir fielmente o chamado de Deus, o segundo Adão — Jesus Cristo — cumprirá a ordem dada ao primeiro Adão. Ele salvará um povo, dominará a terra e edificará uma civilização que honrará o Pai (1Co 15.22-25). Como a Bíblia revela que a cidade é o resultado final do trabalho do segundo Adão a nosso favor, parece justo pressupor que era essa a intenção de Deus quando deu uma incumbência cultural ao primeiro Adão. Em outras palavras, Deus mandou que Adão e Eva ampliassem as margens do jardim, e, quando a vontade de Deus for definitivamente cumprida e Cristo cumprir o mandato cultural a nosso favor, o jardim do Éden se torna uma cidade-jardim.

Muitos cristãos supõem que o objetivo final da redenção de Cristo seja nos fazer retornar ao mundo rural edênico. Com base nessa suposição, a tarefa dos cristãos é exclusivamente evangelizar e discipular. Mas Apocalipse mostra que não é esse o caso. O plano de Deus para a realização humana é que ela levante civilizações — cidades — que glorifiquem a ele e que administrem as maravilhas e riquezas infinitas que Deus colocou nesse mundo. Essa perspectiva levou Harvie Conn a escrever que o mandato cultural “poderia simplesmente ser chamado de mandato urbano”.

Timothy Keller 

em Igreja Centrada

 



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.