Cristianismo, Novo Ateísmo e Progresso


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O novo ateísmo sempre acusa os que acreditam em Deus de se apegar a “crenças não comprovadas”, em contraste com as declarações factuais rigorosamente comprovadas dos ateus “iluminados”. Mas o que dizer de sua crença no progresso humano? Eagleton destrói esse mito, que considera um pastiche cuja falsidade é fácil de demonstrar, um exemplo evidente de “fé cega”. Que alma racional subscreveria esse mito secular que obriga a tratar catástrofes monumentais engendradas pelo ser humano – Hiroshima, Auschwitz e o apartheid, por exemplo – como “uns poucos tropeços” que de modo algum desacreditam ou abalam o progresso histórico? A diferença entre o cristianismo e o novo ateísmo parece estar na escolha que fazem das crenças sem provas e nos mitos controladores. Nenhum dos dois pode ser provado. Isso, porém, não nos impede de fazer uma avaliação sobre qual deles parece ser mais confiável e convincente.

E se o cristão fizesse uma leitura da cultura e da história? Os os dois temas controladores de sua proposta são, em primeiro lugar, a ideia da humanidade criada à “imagem de Deus” e, em segundo lugar, a humanidade pecadora. Embora os teólogos e as comunidades religiosas divirjam na ênfase relativa que dão a esses dois elementos de um entendimento cristão da natureza humana, são eles os polos gêmeos de toda tentativa cristã de compreender os enigmas e os quebra-cabeças do modo que nos comportamos individual e socialmente.

Sentimo-nos empolgados e inspirados pela visão de Deus, que a nos atrai para o alto; sentimo-nos ao mesmo tempo puxados para baixo pela fragilidade e pela natureza humana decaída. É um dilema conhecido e que foi celebrizado na formulação que lhe deu Paulo: “Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (Rm 7.19). Do ponto de vista cristão, é evidente que temos de reconhecer a existência, a um só tempo, de um destino ou capacidade maior na humanidade do que concebe a maior parte dos sistemas ou filosofias políticas, bem como uma capacidade igualmente grande de não atingir tais aspirações.

Esse modo de pensar nos permite estruturar a imagem complexa que temos da cultura e da história humana caracterizadas por aspirações de grandeza e bondade de um lado e de opressão e violência do outro. Muita gente já refletiu sobre a profunda ambiguidade da história e sobre a confusão que ela  inflige às teorias ingênuas sobre a bondade da humanidade. Terry Eagleton é apenas um entre vários analistas que apontam o lado sombrio da cultura e da história contemporâneas.

Como espécie, os seres humanos talvez tenham realmente a capacidade para o bem, que parece, porém, equiparar-se com sua capacidade para o mal. O reconhecimento dessa profunda ambiguidade é fundamental se quisermos evitar a utopia social e política baseada em julgamentos de valor ingênuos e não empíricos sobre a natureza humana – impulsionados pela ideologia. Como previu acertadamente J. R. R. Tolkien em 1931, às vésperas da ascensão do nazismo, uma visão ingênua da humanidade conduz à utopia política na qual o “progresso” leva à catástrofe em potencial:

Não caminharei com seus olhos progressistas,
erguidos e sábios. Diante deles se abre o negro abismo
e para la tende o seu progresso.

Alister McGrath

em seu livro Apologética Pura e Simples



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.