Como devemos julgar C. S. Lewis 50 anos após sua morte?


C S Lewis

O próprio Lewis não tinha dúvidas sobre a identidade do juiz ou sobre o critério a ser usado numa avaliação desse gênero. Para ele, a única crítica confiável do valor de um autor é o tempo, e a única medida confiável é o prazer causado pela leitura da obra desse autor. Como o próprio Lewis observou, ninguém consegue “eliminar” um autor que é “insistentemente prazeroso”. Lewis conseguiu a mais difícil transição que um autor pode esperar fazer: uma geração após sua morte, ele tem mais leitores do que teve em vida.

O que a próxima geração fará dele não se pode saber. Ao contrário das expectativas da década de 1960, a crença em Deus não desapareceu, tendo-se tornado um fator recorrente na vida pessoal ou pública desde 2000 aproximadamente. O recente crescimento do assim chamado “novo ateísmo” simplesmente aumentou o interesse público por questões religiosas, criando um novo apetite por discussões acerca de Deus, que slogans como “Deus é uma ilusão” não conseguem satisfazer. Assim, é provável que Lewis continue sendo uma figura controversa, no sentido de que agora, como será no futuro, muitos se apoderam dele como paladino ou vilão nesses novos debates, o que mostra mais uma vez sua permanente importância. O volume e o tom da crítica contra Lewis por parte dos fundamentalistas de esquerda e direita deve, em última análise, ser visto como um reflexo de status cultural icônico que ele tem, mais do que como um aferidor confiável de seus defeitos literários e pessoais.

Alguns sem dúvida continuarão acusando Lewis de escrever propaganda religiosa disfarçada em toscos e cruéis trajes literários. Outros o verão como um magnífico, até mesmo visionário, advogado e defensor da racionalidade da fé, cujos poderosos apelos à imaginação e à lógica expõem a superficialidade do naturalismo. Alguns sustentarão que ele defende pontos de vista socialmente retrógrados, baseados no mundo ultrapassado da Inglaterra da década de 1940. Outros o verão como um crítico profético de tendências culturais que eram amplamente aceitas no seu tempo, mas que agora são vistas como destrutivas, degradantes e perniciosas. Todavia, concordando ou não com Lewis, não se pode ignorar sua importância como ponto de referência. Como observou certa vez, com muita argúcia, Oscar Wilde: “A única coisa pior do que ser muito falado é não ser absolutamente falado”.

A maioria das pessoas, porém, verá Lewis simplesmente como um escritor talentoso que deu imenso prazer a muitos e iluminação a alguns e que, acima de tudo, celebrou a clássica arte da boa escrita como meio de comunicar ideias e expandir pensamentos. Para Lewis, a melhor arte sugere estruturas mais profundas da realidade, ajudando a humanidade em sua perpétua busca pela verdade e pelo significado.

Fica com a última palavra um carismático, jovem presidente norte-americano, que morreu logo depois de Lewis no dia 22 de novembro de 1963. Em seu discurso feito no Amherst College quatro semanas antes de sua morte, John F. Kennedy, homenageando o grande poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963), expressou seu elogio à obra de poetas e escritores. “Nunca devemos nos esquecer”, declarou ele, “de que a arte não é uma forma de propaganda; é uma forma de fé”. Lewis, a meu ver, concordaria.”

Alister McGrath

no livro A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia.



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.


Commentários (Um comentário)

  • 24 de novembro de 2014 at 9:52

    Texto de incrível lucidez!