C. S. Lewis, Fitafuso, Vermebile e a questão das orações


The Screwtape Letters

Ando lendo com muito prazer e uma (nem tão boa) dose de identificação o livro Cartas de um diabo a seu aprendiz. Sobre esse livro, Alister McGrath escreveu na excelente biografia A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia

“Como o próprio Lewis relembrou mais tarde, ele “nunca havia escrito nada com tanta facilidade”.3 As 31 “cartas de um diabo a seu aprendiz”— uma para cada dia do mês — começaram a aparecer semanalmente numa revista eclesiástica chamada The Guardian (que não se deve confundir com o importante jornal britânico de mesmo nome) no dia 2 de maio de 1941.

As cartas retratam o inferno como uma burocracia (talvez o tipo de coisa que, na opinião de Lewis, a Universidade de Oxford corria o perigo de se tornar). Parecia inteiramente natural que Lewis descrevesse o comportamento diabólico em termos da “burocracia de um Estado policial ou dos escritórios de uma empresa que trata de negócios completamente sórdidos”. Lewis sentiu grande prazer na elaboração do tipo de aconselhamento que o astuto diabo velho, Fitafuso, poderia dar ao noviço Vermebile sobre como manter seu “paciente” em segurança longe das mãos do Inimigo. As cartas estão repletas de espirituosas observações (particularmente em relação às condições em tempos de guerra), ocasionais caricaturas cruéis de certos tipos de gente que Lewis evidentemente detestava e um sentimento crescente de sabedoria religiosa sobre como lidar com os mistérios e enigmas da vida.

Gosto da forma como C. S. Lewis escreve sobre oração (você pode ler trechos aqui e aqui) e é  justamente sobre isso a quarta carta escrita por Fitafuso que divido com vocês:

Querido Vermebile,

As sugestões bastante amadorísticas da sua última missiva indicam que eu já deveria tê-lo instruído a respeito de um assunto bastante complicado: a prece. Você não deveria ter dito que meu conselho sobre as preces do humano em questão para a mãe dele “provou-se: totalmente infrutífero”. Não é bem o tipo de coisa que um sobrinho deve escrever ao tio – muito menos um tentador junior ao subsecretário de um departamento. Seu comentário também revela o desagradável desejo de colocar a responsabilidade sobre os meus ombros. Você deveria aprender a pagar pelos seus próprios erros. A melhor coisa a fazer, se possível, é afastar completamente o paciente em questão da intenção de rezar. Se o paciente é um adulto, recém-convertido para o lado do Inimigo, como é o caso do nosso homem, conseguimos tal feito quando o encorajamos sempre a lembrar-se, ou a pensar que se lembra, do quanto suas preces na infância eram automáticas. Em contrapartida, você talvez possa persuadi-lo a almejar algo totalmente espontâneo, introspectivo, informal, livre de regras; e isso na verdade significará, para um iniciante, o esforço para produzir em si mesmo um estado de espírito vagamente devocional no qua] a verdadeira concentração de vontade e inteligência não desempenham nenhum papel. Um poeta deles, Coleridge, certa vez escreveu que não rezava “movendo os lábios e de joelhos”, mas simplesmente “dispunha seu espírito ao amor” e dava lugar a um “sentimento de súplica”. É exatamente esse tipo de prece que queremos. já que ela tem uma semelhança superficial com a prece silenciosa praticada por aqueles que já estão em estágio bem avançado ao lado do Inimigo, os pacientes mais espertinhos e preguiçosos podem ser ludibriados por ela durante um bom tempo.

No mínimo, ficarão convencidos de que a posição do corpo não faz a menor diferença quando rezam – pois eles constantemente se esquecem (e é o que você jamais deve esquecer) de que são animais, e que suas almas são afetadas pelo que quer que seus corpos façam. É engraçado como os mortais sempre nos imaginam enfiando idéias em suas cabeças, quando, na verdade, somos peritos em deixar coisas de fora.

Se isso falhar, seu último recurso será redirecionar sutilmente as intenções dele. Sempre que eles se ocupam do Inimigo somos derrotados, mas há modos de impedi-los. O modo mais simples é evitar que olhem para Ele e voltem o olhar para si mesmos. Faça-os ficar observando os próprios pensamentos e tentar produzir sentimentos pela ação de sua própria vontade. Quando tiverem a intenção de pedir-Lhe um sentimento de Caridade, deixe-os, em vez disso, tentar produzir um sentimento de caridade neles mesmos. Eles jamais devem perceber que é exatamente isso que estão fazendo. Quando pedirem por coragem, deixe-os tentar sentirem-se corajosos. Quando estiverem rezando em busca de perdão, deixe-os tentar sentirem-se perdoados. Ensine-os a avaliar cada prece pela capacidade que elas têm de produzir o sentimento desejado; nunca os deixe suspeitar que o fracasso ou o sucesso dessa empreitada irá depender em grande medida de como se sentem no momento – bem ou mal, cansados ou relaxados.

Mas, é claro, o Inimigo não ficara de braços cruzados enquanto isso. Onde quer que haja urna prece, existe o perigo de Sua ação imediata. Ele é totalmente indiferente à dignidade de Sua posição, e à nossa, como espíritos puros, enquanto para os animais humanos que se ajoelham Ele derrama o autoconhecimento de um modo descarado. Mas, mesmo se Ele malograr a sua primeira tentativa de ludibriar seu paciente, nós dispomos de uma arma ainda mais sutil. Os humanos não começam com aquela percepção direta dEle, que nós, infelizmente, não podemos evitar. Nunca chegaram a conhecer aquela luminosidade horripilante, aquele fulgor penetrante e doloroso que é a base da dor permanente cm nossas vidas. Se você observar a mente do seu paciente enquanto ele reza, não encontrará nada disso. Se examinar bem a idéia a que ele se dirige, verá que é uma combinação de vários elementos ridículos. Haverá  imagens derivadas das representações do Inimigo como Ele apareceu durante aquele episódio vergonhoso conhecido como Encarnação; haverá também imagens mais vagas – talvez bem primitivas e pueris – associadas às outras duas Pessoas. Haverá até mesmo um pouco de sua própria reverência (e as sensações físicas que a acompanham) coisificada e atribuída ao objeto reverenciado. Sei de casos em que aquilo que o paciente chamava de seu “Deus tinha uma localização fixa – no canto esquerdo do teto do quarto, dentro de sua própria cabeça ou num crucifixo na parede. Mas, independentemente da natureza desse objeto composto, você deve manter  seu paciente sempre rezando para isso – a coisa que ele mesmo criou, não a Pessoa que o criou. Você poderá até mesmo encoraja-lo a considerar importante fazer adendos a esse objeto composto e a mantê-lo sempre presente na sua imaginação durante toda a prece. Pois, se ele vier a saber a diferença, se conscientemente direcionar suas preces “não àquilo que penso que és, e sim ao que sabes que és”, estaremos em péssima situação. Uma vez que todos os seus pensamentos e imagens forem descartados, ou conservados (mas com plena consciência de sua natureza meramente subjetiva), e uma vez que o homem entregar-se à Presença completamente real, externa e invisível, que está com ele ali, no mesmo recinto, nunca consciente dessa presença da mesma forma que a presença tem consciência dele – bem, meu caro, é aí que tudo pode acontecer. Para evitar essa situação – essa verdadeira nudez da alma durante a prece -, há algo que pode ajudá-lo: os próprios humanos não desejam tanto assim essa nudez da alma quanto pensam. Às vezes, o que eles podem obter é bem maior do que aquilo que eles querem!

Afetuosamente, seu tio,
FITAFUSO



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.