A natureza mista da cultura


Calgary

Toda cultura tem um misto de elementos bons e ruins, e não devemos rejeitar alguns aspectos da cultura simplesmente porque diferem dos nossos. Embora essa ideia pareça verdadeira ao senso comum, será que é mesmo apoiada pela Bíblia? Um estudo de Romanos 1 e 2 revela que é.

Toda cultura tem suas respostas a grandes perguntas, como “Por que estamos aqui? Quais são, portanto, as coisas mais importantes da vida? O que há de errado com o mundo? O que pode consertar as coisas?”. E toda sociedade tem seus valores supremos; portanto, empenha-se para que o ambiente em que vive sirva a esses valores. Nenhuma cultura é neutra nesses assuntos, e nesse sentido podemos afirmar que toda obra cultural é “pactual” — todos temos compromisso com alguma coisa, mesmo quando essas suposições e pressuposições não sejam conscientemente identificadas. Os capítulos 1 e 2 de Romanos explicam isso dizendo que todos pecamos e estamos destituídos da glória de Deus: tanto judeus quanto gentios estão igualmente perdidos. Os gentios pagãos talvez idolatrem a sensualidade, mas os judeus idolatram a retidão moral. Ambos, como todas as culturas, buscam justificação e salvação em outra coisa que não Deus.

Ao mesmo tempo, porém, vemos em Romanos 1 e 2 que todo ser humano tem um conhecimento primordial a respeito de Deus. Em Romanos 2.14,15, Paulo afirma que a lei de Deus está escrita no coração de cada ser humano. Todas as pessoas têm um sentimento inato de que a honestidade, a justiça, o amor e a “regra de ouro” são coisas certas [1]. Como fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26-28), todos sabemos, num nível relativamente profundo, que existe um Deus, que somos suas criaturas, que devemos servi-lo e que temos de lhe prestar contas. Presente de alguma forma em todas as culturas, existe uma “revelação geral” ou “graça comum” — um conhecimento não salvífico e com traços de Deus que ele concede a todos os que carregam sua imagem. Essa revelação não é salvadora. Não revela Jesus ou o que ele fez por nós, pois isso só pode ser conhecido por meio da “revelação especial” da Bíblia. Mas existe um conhecimento geral de Deus, uma vez que ele revela a todos um pouco de sua verdade e sabedoria.

É com base nisso que Isaías 28.23-29 afirma que qualquer lavrador habilidoso e conhecedor da ciência da plantação foi “instruído por Deus”. Um comentarista diz o seguinte sobre esse texto: “O que parece ser uma descoberta (a estação apropriada e as condições para a semeadura, a gestão agrícola, o ciclo das culturas etc.) é, na verdade, o Criador abrindo seu livro da criação e revelando sua verdade”. E a lavoura é somente um aspecto da cultura humana. A composição de músicas, a criação de tecnologias que desenvolvem nossa capacidade de viajar pelo ar ou de nos comunicar com outras pessoas, a liderança política sábia — todas essas coisas acontecem quando Deus abre seu livro da criação para nos ensinar (cf. Êx 31.2-11; Tg 1.17).

Romanos 1.18-25 apresenta um cenário dinâmico e equilibrado de como a revelação geral (ou graça comum) de fato opera na vida das pessoas. Lemos que a verdade está sendo impedida (v. 18), mas continua a pesar sobre nós. O versículo 20 afirma: “Pois os seus atributos invisíveis […] são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis”. Entretanto, os verbos nooumena (“são percebidos”) e kathoratai (“são vistos”) estão no particípio presente passivo, ou seja, a realidade da natureza de Deus e nossas obrigações para com ele estão continuamente diante de nós. A revelação geral não é apenas um conjunto de ideias inatas ou princípios estáticos. É a pressão contínua e insistente da verdade de Deus na consciência de cada ser humano.

Toda cultura humana é um misto extremamente complexo de verdade esplendorosa, meias verdades ofuscadas e resistência inegável diante da verdade. Cada cultura apresentará seu discurso idólatra. Mesmo assim, cada cultura dará um testemunho da verdade de Deus em seu meio. Deus nos presenteia com sabedoria, talento, beleza e habilidades sem levar em conta nenhum merecimento. Ele espalha essas coisas sobre uma cultura como se fossem sementes, para enriquecer, iluminar e preservar o mundo. Sem esse entendimento da cultura, os cristãos são levados a pensar que podem viver de modo autossuficiente, isolados das contribuições de seus semelhantes e não abençoados por elas. Se não apreciarem a manifestação generosa da sabedoria de Deus na cultura mais ampla, os cristãos talvez tenham dificuldade de entender por que os não crentes geralmente superam os crentes na prática moral, na sabedoria e na habilidade. A doutrina do pecado ensina que, como cristãos, nunca somos tão bons quanto deveríamos ser em virtude da nossa cosmovisão acertada. Ao mesmo tempo, a doutrina de que fomos criados à imagem de Deus e a compreensão da graça comum mostram que os não cristãos nunca são tão falhos quanto deveriam ser em razão de sua cosmovisão infundada.

Isso mostra que nossa postura diante de cada cultura humana deve ser de desfrute, com critério, e de uma bem-vinda cautela. Devemos, sim, usufruir das perspectivas e da criatividade de outros povos e culturas. Devemos reconhecer e celebrar manifestações da justiça, da sabedoria, da verdade e da beleza em cada cultura. Mas abordamos cada cultura sabendo que foi contaminada pelo pecado e, de forma particular, pelo pecado da idolatria. Todas as culturas têm elementos de escuridão e de luz. Não podemos concluir de modo simplista que as culturas tradicionais e conservadoras são bíblicas e que as culturas seculares e liberais são imorais e maléficas. As culturas tradicionais têm também os seus ídolos, geralmente atribuindo à família ou à etnia um valor absoluto — que leva aos males do racismo, do tribalismo, do patriarcado e de outras formas de moralismo e opressão. As culturas liberais atribuem ao indivíduo e ao princípio de liberdade humana um valor absoluto — que corroem a família, a comunidade, a integridade nos negócios e nas práticas sexuais. Contudo, tanto a importância da família quanto o valor e a liberdade do indivíduo acham-se no centro da cosmovisão bíblica. O entendimento bíblico e coerente do evangelho (os cristãos estão salvos, mas são pecadores), da imagem de Deus (as pessoas estão perdidas, mas refletem de modo indelével a natureza de Deus) e da graça comum (todas as pessoas impedem a verdade sobre Deus, mas, mesmo assim, a “ouvem” e “conhecem”) oferece uma compreensão mais flexível da cultura. Isso nos fornece a base para a contextualização.

Timothy Keller 

em Igreja Centrada


 

[1] Francis Hutcheson, filósofo moral do século 18, usa uma ilustração famosa para explicar isso. Ele pede que imaginemos que um homem descobriu um tesouro milionário em seu quintal. Depois somos informados de que ele entrega tudo aos pobres. Mesmo que nós mesmos jamais fizéssemos isso e ainda que alardeássemos publicamente que tal atitude foi pura tolice, não deixamos de admirar o que foi feito. Há uma percepção indelével da beleza moral do ato em si.



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.