A luta entre o Carnaval e a Quaresma


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A obra “A luta entre o Carnaval e a Quaresma”, de Pieter Bruegel, o Velho, ilustra bem o conflito dualista humano, a tensão entre o ente religioso e o desejo em excesso do prazer. A obra é uma expressão quase cirúrgica do que temos nas culturas da cristandade, a entrega desenfreada antes que a quaresma chegue ou, em outros casos, a entrega para o prazer antes que a seriedade do ano com sua rotina pesada chegue – afinal é carnaval e tudo está liberado.

Esse paradoxo entre “natureza e graça” e “santo e profano” faz que alguns recorram a caminhos que vão desde a aparente “pureza crítica”, que suprime a natureza (os prazeres da carne), até a entrega absoluta e consciente para sarjeta do prazer. No entanto, ambos os casos ignoram o que há de mais precioso na vida e mais urgente em nosso meio, pois afinal, ambas as alternativas são dualistas que dividem o ser em: ora um ser moralmente religioso, ora um ser fanfarrão. O dualismo faz do sujeito então um hipócrita.

O religioso pode no carnaval ver o caminho da vida a partir do monastério das abstinências e de lá levantar sua vara de justo juiz com nojo dos depravados em folia. O folião tenderá a dar vazão aos desejos perversos e obscuros dentro de si que não conseguem vir à superfície todos os dias. Esses dois modelos de vida são feios demais, ambos se negligenciam e pior, ambos cegam para a realidade do genuíno desfrute do prazer; ambos paralisam para real necessidade que cerca a nossa realidade – por isso que as atrocidades em tempos de prazer não mobilizam e nem chocam, e que se negligencia o triste período nacional que vivemos.

Lucas Louback Silva



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Publicado por Maelyson Rolim

Um míope no Caminho.